quarta-feira, 21 de junho de 2017

Artigo, Tito Guarniere - Vós amais o que é fácil

Artigo, Tito Guarniere - Vós amais o que é fácil
“Vós amais o que é fácil”, reclama a certa altura do seu famoso poema “Cântico Negro”, o poeta português José Régio. Essas palavras sempre me vêm à memória quando vejo quantas pessoas, mesmo nas situações mais complexas, têm uma explicação na ponta da língua, um juízo de valor pronto, uma sentença final e definitiva.
Para os que amam o fácil, os fatos são absolutos, não contêm mediações, não comportam abordagem diversa ou versão que não esteja contida no repertório - em geral estreito - das suas próprias convicções. Os que amam o fácil leem a orelha dos livros, as manchetes dos jornais, quando muito o "lead" da matéria. É quanto lhes basta para, de toda sorte, terem confirmadas as suas impressões e opiniões.
Contextos mais amplos não lhes servem, nem mesmo para confirmar as suas teorias como define a escritora Anaïs Nin: "os fatos não são como são, são como nós somos". Não querem ter direito apenas à opinião, mas também aos fatos. Nas suas cabecinhas há um mundo sem nuances, que distingue desde logo, sem peias nem meias, o que é virtude e o que chafurda no vício, quem é o vilão e quem é mocinho, e de que lado está, peremptoriamente, o bem e o mal.
E assim, sem mais perguntas e delongas, entram de sola no debate, com suas verdades incontrastáveis. Como raciocinam pouco, enveredam para a ofensa, a desqualificação de quem ousa contrariar seus arraigados valores, sua irretocável visão de mundo. E o fazem, via de regra, sem ao menos tangenciar o arrazoado que não apreciam. Resolutos, acham dispensável e cansativo refutar razões e argumentos.
No debate, costumam atribuir aos adversários (de suas posições e ideias) intenções subalternas, mesmo que essa inculpação dos outros não guarde nenhuma consonância com a realidade.
Nas redes sociais, a tribo dos que amam o fácil é amplamente dominante. E assim, plenos de certeza arrogante, quando travam um diálogo é de surdos, descambam para a gritaria insana, onde ninguém se entende porque o objetivo é esse mesmo: todos só querem dar conta das suas certezas e ninguém dá o braço a torcer. Mas não há nenhum pejo de torcer os fatos, nas vezes em que eles não se encaixam com perfeição nos seus moldes e modelos.
Os que amam o fácil não estão só nas redes sociais. Estão em todos os lugares: nas redações de jornais e tevês, em sites inteiros, em dúzias de articulistas, que observam os eventos do dia ou da semana, sempre com o mesmo olhar, as mesmas lentes. Nada, rigorosamente nada, os afasta do ponto de vista que abraçaram. E qualquer desvio que possa fazer sombra à versão escolhida, é imediatamente repudiada, impugnada, ridicularizada. Ao final, de toda forma e jeito, há que prevalecer o cânone religioso, o dogma, a inabalável convicção.
Como direcionam a outrem a culpa das mazelas da conjuntura e dos males do país, como não cogitam de que poderia haver falta ou exagero no que defendem, um ponto a flexionar ou um aspecto a esclarecer, como os adversários em toda circunstância estão carentes de razão, mal sabem que na barafunda em que estamos metidos, eles também são parte, eles também têm sua parcela de culpa.
titoguarniere@terra.com.br

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